Moradores do Moinho irão conhecer área
prometida para a moradia na Ponte dos Remédios
16/01/2011
Aline Scarso
Joana Tavares
da Redação,
Os moradores da comunidade do Moinho, no bairro Campos Elíseos,
centro de São Paulo, realizaram nesta sexta-feira (13) uma assembleia para
discutir nova proposta apresentada pela Prefeitura voltada para as 365 famílias
que tiveram suas casas destruídas por um incêndio no dia 22 de dezembro.
Segundo Neide Aparecida Campos, da associação dos moradores, a proposta
contempla o pagamento de uma bolsa aluguel por 10 meses e depois eles seriam
transferidos para uma moradia social na Ponte dos Remédios, na zona oeste da
cidade. Caso as obras não fiquem pronta a tempo, a bolsa seria prorrogada.
As
pessoas que tiveram suas casas destruídas e se interessaram pela proposta deram
seus nomes e irão conhecer a região no fim de semana. Para as outras 500
famílias que moram na comunidade, a prefeitura prometeu realizar uma outra
conversa, marcada para os próximos quatro meses, em que se definirá a
construção de moradias no próprio centro. “Voltamos felizes [da reunião],
porque precisava de uma proposta mais concreta para o pessoal que ficou sem
nada. Mas vamos só ver se a prefeitura vai mesmo cumprir a promessa de
conversar com a gente até o meio do ano, porque depois começa a política das
eleições, aí já viu, né?”, questiona Neide.
Na
semana passada, os moradores rejeitaram a proposta que colocava que todos
seriam transferidos da comunidade. A intenção deles é lutar por seu direito à
moradia na própria região, onde trabalham e constituíram suas vidas.
Leia mais na reportagem “Em São Paulo, pobre não pode morar no
centro”, publicada na edição 463 do Brasil de Fato:
O
mecânico Paulo Rodrigues Silva perdeu os documentos, um cachorro e tudo o que
tinha depois que o barraco que ocupava junto com a mulher Ana Paula Ferreira
pegou fogo no dia 22 de dezembro, junto com os outros barracos do prédio do
Moinho, uma fábrica abandonada no bairro Campos Elíseos, região central de São
Paulo.
Com
o boletim de ocorrência registrado no 77º Departamento de Polícia em mãos,
Silva lista os bens que perdeu e fala sobre o trabalho que terá para
reconstruir a vida, organizar a sua casa e comprar novos eletrodomésticos e
móveis. “Será muito difícil e a gente sabe que a prefeitura não quer que a
gente fique aqui. Estão fazendo uma cachorrada com a gente, tentando nos
colocar para fora do terreno”, afirma.
O
sentimento de insegurança da comunidade em permanecer no local é geral. Desde
que o incêndio ocorreu, expulsando do prédio do Moinho 365 famílias, a
Prefeitura tenta negociar a retirada de todos os moradores que vivem no terreno
de terra batida sob o viaduto Engenheiro Orlando Murgel, ao lado de uma linha
de trem da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).
Junto
às 365 famílias se somam outras 500, constituídas basicamente por trabalhadores
de baixa renda que sobrevivem, apertados, em barracas e casebres improvisados,
servidos de energia elétrica, água e esgoto. A maioria trabalha no centro como
pedreiros, faxineiras, catadores e camelôs, e seus filhos estudam em escolas da
região.
“O
[prefeito Gilberto] Kassab (PSD) promete nos dar essa área há um tempão,outros
prefeitos também já prometeram. Agora vamos ver o que vai resolver”, destaca o
pedreiro. Ele faz parte de uma centena de pessoas que, desabrigadas pelo
incêndio, preferiram morar perto da comunidade que seguir para os albergues
disponibilizados pela Prefeitura. Como justifi cativa, dizem que têm medo de
serem esquecidos nesses espaços e que preferem lutar para conquistar o direito
de permanecerem na área ocupada há cerca de 30 anos.
Outras
116 pessoas foram alojadas em albergue cedido pelo poder municipal. Apenas duas
semanas depois, dois outros locais foram abertos para receber os atingidos. A
Aliança Misericórdia, que atua no Moinho desde 2004, critica que a alimentação
foi fornecida apenas para a minoria que optou sair da comunidade, e que o
restante teve que se virar com o apoio dos outros moradores e de doadores
externos.
“Recolhemos
dois galpões lotados de doações. Além da Aliança, Dom Odilo Pedro Scherer,
arcebispo metropolitano de São Paulo, emitiu uma carta que foi para todas as
paróquias, por isso recebemos tanta coisa. Há desde alimentos não perecíveis,
até roupas, brinquedos”, explica Leandro Rafael, da Associação Aliança
Misericórdia.
Ele
diz que a campanha de doações foi encerrada, e que agora recebem contribuição
em dinheiro, para fazer a aquisição e reforma de um galpão onde vai funcionar
uma creche, demanda antiga dos moradores, já que a prefeitura não construiu
nenhuma para as 900 crianças que moram no Moinho.
O
bairro Campos Elíseos, onde fica a comunidade, é vizinho aos bairros da Luz e
Santa Ifigênia que, de acordo com a Prefeitura, serão reurbanizados com novos
empreendimentos imobiliários. Para isso, somente na região da Santa Ifi gênia,
a remodelação urbana prevista no projeto Nova Luz causará a desapropriação e
demolição de 30% da região. Para os moradores do Moinho, está claro que a
Prefeitura pretende retirá-los do centro de São Paulo para continuar com os
projetos de “embelezamento do centro”.
Leia mais na edição impressa do Brasil de Fato.

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