quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Universidade e inserção social


Frei Betto


Por que dizemos universidade e não pluriversidade? Trata-se de uma instituição que comporta diferentes disciplinas. Multicultural, nela coabita a diversidade de saberes. O título universidade simboliza a sinergia que deveria existir entre os diversos campos do saber.

Característica lamentável em nossas universidades, hoje, é a falta de sinergia. Carecem de projeto pedagógico estratégico. Não se perguntam que categoria de profissionais querem formar, com que objetivos, de acordo com quais parâmetros éticos.

Ora, quando não se faz tal indagação é o sistema neoliberal, centrado no paradigma do mercado, que impõe a resposta. Não há neutralidade. Se o limbo foi, há pouco, abolido da doutrina católica, no campo dos saberes ele nunca teve lugar.

Um cristão acredita nos dogmas de sua Igreja. Mas é no mínimo ingênuo, senão ridículo, como assinala o filósofo Hilton Japiassu, um mestre ou pesquisador acadêmico crer no propalado dogma da imaculada concepção da neutralidade científica.

Em que medida nossas instituições de ensino superior são verdadeiramente universidades, ou seja, se regem por uma direção, um enfoque dialógico, um projeto pedagógico estratégico? Ou se restringem a formar profissionais qualificados destituídos de espírito crítico, voltados a anabolizar o sistema de apropriação privada de riquezas em detrimento de direitos coletivos e indiferente à exclusão social?

A universidade, como toda escola, é um laboratório político, embora muitos o ignorem. E a política, como a religião, comporta um viés opressor e um viés libertador. Como diria Fernando Sabino, são facas de dois legumes…

Um dos fatores de desalienação da universidade reside na extensão universitária. Ela é a ponte entre a universidade e a sociedade, a escola e a comunidade.

As universidades nasceram à sombra dos mosteiros. Estes, outrora, eram erguidos distantes das cidades, o que inspirou a ideia de campus, centro escolar que não se mescla às inquietações cotidianas, onde alunos e professores, monges do saber, vivem enclausurados numa espécie de céu epistemológico. Como assinalava Marx, dali contemplam a realidade, tranquilos, agraciados pelas musas, encerrados na confortável câmara de uma erudição especializada que pouco ou nada influi na vida social.

Essa crítica à universidade data do século 19, quando teve início a extensão universitária. Em 1867, a Universidade de Cambridge, Inglaterra, promoveu um ciclo de conferências aberto ao público. Pela primeira vez, a academia abria suas portas a quem não tinha matrícula, o que deu origem à criação de universidades populares.
Antonio Gramsci estudou numa universidade popular na Itália. A experiência o fez despertar para o conceito de universidade como aparelho hegemônico que se relaciona com a sociedade de modo legitimador ou questionador. Para ele, uma instituição crítica deveria, através dos mecanismos de extensão universitária, produzir conhecimentos acessíveis ao povo.

Na América Latina, antes de Gramsci houve o pioneirismo da reforma da Universidade de Córdoba, em 1918. A classe média se mobilizou para que as universidades controladas pelos filhos dos latifundiários e pelo clero se abrissem a outros segmentos sociais. Fez-se forte protesto contra o alheamento olímpico da universidade, sua imobilidade senil, seu desprezo pelas carências da comunidade entorno.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Em caso de dúvidas, a terra é para os mais ricos

Possível ilegitimidade de posse e inexistência de função social caracterizam terreno do especulador Naji Nahas  

Eduardo Sales de Lima
da Redação  
  
A ocupação da comunidade do Pinheirinho se iniciou em 2004, no terreno onde funcionava a empresa Selecta S/ A (massa falida), que possui uma dívida para com a União de R$ 11 milhões, e deve um IPTU da área de R$ 15 milhões. O dono da empresa é Naji Nahas, um notório especulador que já foi preso devido à prática de evasão de divisas e lavagem de dinheiro, apurada a partir da Operação Satiagraha, em 2008.        
Há dois processos distintos que tramitam em cortes diferentes envolvendo o terreno de Nahas. Um de falência, na 18a. Vara Cível de São Paulo; outro que se refere ao processo de reintegração de posse, na 6a. Vara Cível de São José dos Campos. Se a região for vendida, é possível que valor seja descontado da massa falida da Selecta, diminuindo as dívidas que estão no nome Naji Nahas.          
As informações disponíveis até o momento revelam que as terras, avaliadas em R$ 180 milhões, pertenciam a um casal de alemães assassinados em circunstâncias não esclarecidas. Eles não possuíam herdeiros.      
De acordo com assessora jurídica do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem-Teto, Camila Alves Cândido, é obscuro o caminho em que a área passou das mãos do Estado, responsável automaticamente pelas terras após a morte do casal, para o conjunto de propriedades de Naji Nahas.  
Ceticismo
A origem do terreno remontaria à década de 1970. A área em questão, passou a pertencer a um amigo [do casal alemão] que simplesmente tomou posse do terreno e, que com o passar dos tempos, teria repassado para uma terceira família. “Esses novos donos, por sua vez, teriam vendido o terreno para Naji Nahas”, revela Camila.    
“O que deve ser questionado, neste momento, é se a empresa Selecta é a real proprietária deste terreno, uma vez que precisa ser investigada a aquisição originária da área e o seu repasse a terceiros que poderia ter sido feito, como se faz em muitas áreas antigas, apenas um contrato de gaveta que não era levado a registro público. E mesmo que esse registro tenha sido feito pela empresa, existe uma lacuna sobre a documentação dos antigos proprietários”, elucida a assessora jurídica e militante do MTST.       
Posse
Outro problema para Nahas (e para diversos proprietários de terras pelo Brasil afora) é o descumprimento da função social de seu terreno em benefício da especulação imobiliária. Como lembra Camila, por ter a posse da área e posteriormente abandoná-la, sem fazer uso dela, o terreno, supostamente legal de Nahas, é passível de retenção por parte do poder público, como afirma o Estatuto das Cidades. A função social da propriedade em seu art. 2º, no parágrafo 4o., diz que o controle do uso do solo deve evitar “a retenção especulativa de imóvel urbano, que resulte na sua subutilização ou não utilização”.      

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Os estudantes chilenos, os movimentos locais e a academia.


Escobar
Ser humano, militante, atuante em realidade de vulnerabilidades e Sociólogo.



A revolução dos Pinguins em 2006, no Chile, levou mais de meio milhão de estudantes as ruas. Manifestações que nasceram de estudantes do ensino médio e a luta pela educação somente tem ganhado força. O nome de “Revolução dos Pinguins” foi em homenagem aos uniformes usados pelos estudantes do ensino médio chileno.

Já em 2006 foi colocado em cheque a educação ligada ao capital, trazendo a tona temas como a gratuidade do passe escolar ou fim da queda da Lei Orgânica Constitucional de Ensino que foi promulgada pelo ditador Pinochet ainda no régime militar e que colocava o Estado somente como um ente regulador e protetor deixando assim a responsabilidades pela educação para as corporações privadas, e tantos outros temas reivindicados.

De lá pra cá, as marchas e manifestações só ganharam força e aumentaram em apoio popular e unidade das mais variadas alas políticas e revolucionárias. Colocou em evidencia a figura de uma mulher líder, em um país no qual o conservadorismo ainda se faz sentir, que por parte do Governo recebeu as mais variadas críticas ao movimento desde “Filhos do Fidel” a “Viúvas do Che” e por ai vão as vozes que ecoavam da direita chilena, que ainda insistem em contar que os comunistas comem as criancinhas.

As manifestações no Chile estão longe de acabar, pois em janeiro já se sentiram as primeiras ocupações de escolas e universidades, sendo que na última acontecida no mês que se passou no colégio feminino de Ñuñoa as estudantes já realizaram uma das primeiras ocupações, sendo taxadas no ano que se passou pelo Alcalde Pedro Sabat (prefeito da região de Ñuñoa) como uma ocupação de “Puterío”, causando assim mais uma ocupação do local por parte das alunas neste ano como um protesto contra as palavras do conservador.

As manifestações derrubaram alguns ministros de educação e trazem uma série de reflexões, sobre o que se deve aprender com os estudantes chilenos.

Um dos fatos a serem levados em consideração é como lutaram juntos os mais diferentes movimentos, desde comunistas, socialistas, anarquistas, operários, pessoas da sociedade civil que saiam para protestar com seus filhos. É um dos fatos a serem ressaltados, pois em alguns movimentos estudantis brasileiros as divisões ideológicas das esquerdas são realmente fatores de divisão, e tudo passa muitas vezes pela questão de quem levantará a bandeira da vitória no final.

Existe a necessidade de uma luta que venha a incorporar o povo dentro dos muros da Universidade e que deselitize o ensino, que as lutas não somente venham a nascer quando o bolso dos alunos for ferido, mas que exista uma analise mais aberta que ultrapasse os muros da academia. Na luta chilena existe uma analise social feita, desde o ingresso dos mais pobres, a educação como uma forma de lucro, o ensino que somente visa uma educação mercadológica, pois a universidade deixou de fora os mais pobres e ainda gritaram à pobreza oculta pelos governos chilenos no intuito de mostrar um país em vias de desenvolvimento. Os estudantes chilenos gritaram ao mundo que havia miseráveis de lado e escondidos pelos números.

A academia brasileira, em sua grande maioria tem uma divida histórica com o povo, pois os motivos de luta do povo e as contradições, não são motivos de luta da academia. O povo não se sensibiliza com o movimento estudantil brasileiro, pois a academia não se sensibiliza com o povo. Há um abismo, e os números mostram que quem entra nas universidades gratuitas é justamente quem tem dinheiro (Como bem assinalado na matéria sobre o tema Confira), pois são preparados nas escolas particulares para o vestibular, para algumas horas que podem estigmatizar pessoas ao “sucesso” ou ao “fracasso” de acordo com uma prova que não prova nada.

Bem lembrou há alguns dias Fidel Castro no apoio a luta dos estudantes chilenos “Que no sea sólo una educación general y gratuita, sino preocuparnos por lo que se enseña”, (Confira) que a luta não pode ser somente pela gratuidade, mas também pelo que a educação ensina. Uma universidade não somente deve ser valorizada pela biblioteca que possui ou pelos professores que ela tem em seus quadros, mas pelo que realmente ela ensina. A maioria das universidades prometem uma formação para o mercado de trabalho e para uma melhor posição no mesmo, mas poucas realmente geram o senso crítico, senso da realidade e sendo assim tornam-se coniventes com sistemas desumanos e excludentes.

Nos movimentos estudantis não deve somente preocupar o preço da tarifa, que também deve ser motivo de luta, mas deve gerar a indignação também o fato da educação ser mercadológica e centralizar-se na capacitação de mão de obra para a máquina e não para a vida, uma educação que deixa do lado de fora os mais pobres da nossa sociedade, uma educação que valoriza mais um diploma ou o status do que a geração de agentes de transformação social, uma educação que somente visa o lucro e que trata seus alunos como produtos. E assim quando a academia voltar seus olhos para os temas mais amplos então ela trará para dentro de si o povo, e não somente a academia como um meio assistencialista em meio de comunidades, mas colocando o as pessoas do povo como atores dentro dela.

A educação não pode ser um meio de falseamento de realidades, sendo apenas um elo daquilo que os governos querem que a mesma ensine, como meio de domesticação dos ímpetos da juventude. Acima de tudo deve mostrar a realidade como é com suas contradições e tirando a capa de naturalidade de fatos que não o são, deve ser um meio de estimulo ao questionamento e de ações efetivas. Quando somente visa o estímulo a corrida pelo diploma, supervalorizando horas de testes para taxar os “melhores e piores”, aguça mais ainda a disputa e o estimulo ao individualismo, pois gera nos seus alunos uma visão do outro como um competidor.

A academia deve mostrar a realidade como ela é e apontar as contradições como assinala Gentili “Enquanto é “anormal” que um menino de classe média ande descalço, é absolutamente “normal” que centenas de meninos de rua andem sem sapatos”
Pablo Gentili, extraído do livro Educar na esperança em tempos de desencanto

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Universidades públicas: Meritocracia justa ou injusta?


Fr. David Santos, Daniel Chignoli e Reinaldo João Oliveira
Frei David é diretor da Educafro. Daniel é acadêmico de Direito. Reinaldo é mestre em Teologia


A USP, maior universidade do Brasil e uma das cem melhores do mundo, completou 78 anos, com uma história de contradições junto ao povo brasileiro e, principalmente, negro e pobre. A USP insiste em ignorar que São Paulo é o Estado com a maior população negra do Brasil. Cabe perguntar: quem se alegra e comemora o aniversário dessa universidade? Quem ganhou e ganha com ela?

Longe do lugar-comum de que "o rigor da meritocracia” é fundamental para o bom desempenho da universidade, e isto impede que haja negros e pobres nos campi, é preciso ir além. Deve-se perguntar o que provocou a exclusão dos negros e pobres. Será que os dirigentes da USP já refletiram que existe a meritocracia justa e a injusta? Não seria este o instrumento perverso de exclusão?

Todos sabem que há negros na comunidade da USP, mas são ignorados pelos demais, invisíveis à maioria dos alunos, professores e dirigentes. Os negros e pobres são os trabalhadores da universidade, aqueles que movem as engrenagens das inúmeras atividades — da limpeza à burocracia. São homens e mulheres que trabalham sem qualquer esperança de um dia eles ou seus filhos usufruírem da universidade, que é pública e paga por seus impostos.

A USP é mantida pela arrecadação do ICMS – um imposto que incide sobre toda compra e venda, principalmente da passagem de ônibus, do arroz, do feijão, etc., e pago por todos nós, principalmente os pobres. Ora, se todos consomem, e há muito mais pobres do que ricos, é gritante que a USP –com sua estrutura visivelmente elitizada– é mantida por quem, no atual modelo se seleção, jamais conseguirá nela estudar. Em uma frase: é uma instituição mantida majoritariamente pelos pobres, e desfrutada em grande parte pelos ricos, que não devolvem quase nada ao saírem formados. Mais de 80% dos matriculados vêm de escolas particulares, quando, no Brasil, 88% do que terminam o ensino médio saem de escolas públicas!

Mesmo sem que tudo isso esteja explícito, não é de se admirar que o pobre povo pobre ignore a USP e a classifique como "reduto dos ricos”. A população apenas ignora, retribuindo a indiferença que recebeu nestes últimos 78 anos. Porém, o povo, através da Educafro e outras entidades de articulação comunitária, precisa se fortalecer e fazer mudar esta realidade.

É inadmissível que, ao lado do maior campus da USP – a Cidade Universitária – exista uma enorme favela, que nasceu e se desenvolveu paralelamente à história do campus. É inaceitável saber que os moradores tenham como única forma de adentrar naquelas avenidas e alamedas arborizadas o crachá de funcionário terceirizado da faculdade – uma forma moderna de continuar escravizando os trabalhadores das camadas mais sofridas da sociedade.

É chegada à hora de a universidade pública cumprir seu papel de instituição verdadeiramente democrática e capaz de proporcionar melhores oportunidades para todos os brasileiros que pagam por ela. A USP não pode ficar no falso dilema de que mudar as regras do seu vestibular é rebaixar o nível da instituição. Ir contra a política de cotas é ir na contramão da História, visto que os cotistas negros e brancos estão concluindo seus cursos com média acadêmica igual ou superior aos não cotistas.

Os 78 anos da USP é também uma triste celebração de quase oito décadas de descaso com o povo negro e pobre de São Paulo e do Brasil. Excluído dos melhores postos de trabalho do país, de maneira deliberada, por políticas que não respeitam a diversidade étnica na contratação, como a São Paulo Fashion Week, pensadas e mantidas por políticos, os quais, outrora sentaram nos bancos de escolas, que comungam das mesmas ideias ultrapassadas. Lutamos para que a atual Reitoria e Conselho Universitário da Universidade de São Paulo defendam estes novos paradigmas.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Será a diversidade aceita?


Escobar
Ser humano, militante, atuante em realidade de vulnerabilidades e Sociólogo.



Como é bonita a palavra diversidade, citada e tão de moda, na TV, nas campanhas publicitárias e nas escolas, os governos falando sobre a mesma, e por ai vamos mundo afora, pois hoje uma das pautas é a diversidade.

Tem aqueles que dizem respeitar os diversos sexualmente falando, desde que eles não estejam próximos, e quando isto acontece então começa a catequização sexual dos mesmos em nome de dogmas morais distorcidos. Aceitam-se os gays desde que eles um dia reconheçam que estão “errados” de acordo com padrões moralistas pré-estabelecidos de cima para baixo.

A diversidade é mais uma maneira de lucro, que o digam o Governador e Prefeito em dias de parada gay, é a pauta da moda, é bonito falar de diversidade, mas será que realmente no coração aceitamos os diversos? Será que em uma sociedade moralista e de uma religião preconceituosa as pessoas acordam do dia para a noite e decidem ser diversos sexualmente?

A igualdade étnica somente é um chavão utilizado como meio de dizer que somos todos iguais, realmente o somos, mas os fatos mostram que não somos todos iguais de acordo com o sistema criado. Um negro é igual ao branco perante o camburão parado na esquina? O preconceito diante da cor da pele ainda divide.

A diversidade de culturas também é outro fator a ser salientado, quantas vezes não é de praxe ouvirmos “nem brasileiro é”, “é assim por ser nordestino”, “Argentino é  arrogante”. Como falar em diversidade cultural se até os nossos ancestrais destinamos a viverem em pedaços de terras cedidas, e lhes impomos a fome e a penúria em muitos lugares, tratados como visitas em sua terra? A diversidade cultural é bonitinha, mas não é realidade.

A diversidade religiosa é um dos maiores obstáculos, pois todos de alguma forma procuramos colocar a nossa verdade como absoluta, quando na verdade o cuidado e luta pelo ser humano deveria de ser a maior ação divina e não a busca pelo convencimento do outro a dogmas que na maioria das vezes são mais moralistas que divinos. Como falar em diversidade religiosa, quando temos uma religião montada de cima para baixo que persegue e se impõe sobre as outras, somente baseada em padrões vingativos e moralistas, na qual seus paladinos destinam ao inferno todos aqueles que não se encaixam em seus padrões?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Salvar vidas ou o capital?


Frei Betto



O melhor Papai-Noel do mundo mereceram 523 instituições financeiras europeias quatro dias antes do Natal: 489 bilhões de euros (o equivalente a R$ 1,23 trilhão), emprestados pelo BCE (Banco Central Europeu) a juros de 1% ao ano!

Curiosa a lógica que rege o sistema capitalista: nunca há recursos para salvar vidas, erradicar a fome, reduzir a degradação ambiental, produzir medicamentos e distribuí-los gratuitamente. Em se tratando da saúde dos bancos, o dinheiro aparece num passe de mágica!

Há, contudo, um aspecto preocupante em tamanha generosidade: se tantas instituições financeiras entraram na fila do bolsa-BCE, é sinal de que não andam bem das pernas…

Quais os fundamentos dessa lógica que considera mais importante salvar o Mercado que vidas humanas? Um deles é este mito de nossa cultura: o sacrifício de Isaac por Abraão (Gênesis 22, 1-19).

No relato bíblico, Abraão deve provar a sua fé sacrificando a Javé seu único filho, Isaac. No exato momento em que, no alto da montanha, prepara a faca para matar o filho, o anjo intervém e impede Abraão de consumar o ato. A prova de fé fora dada pela disposição de matar. Em recompensa, Javé cobre Abraão de bênçãos e multiplica-lhe a descendência como as estrelas do céu e as areias do mar.

Essa leitura, pela ótica do poder, aponta a morte como caminho para a vida. Toda grande causa - como a fé em Javé - exige pequenos sacrifícios que acentuem a magnitude dos ideais abraçados. Assim, a morte provocada, fruto do desinteresse do Mercado por vidas humanas, passa a integrar a lógica do poder, como o sacrifício "necessário” do filho Isaac pelo pai Abraão, em obediência à vontade soberana de Deus.

Abraão era o intermediário entre o filho e Deus, assim como o FMI e o BCE fazem a ponte entre os bancos e os ideais de prosperidade capitalista dos governos europeus - que, para escapar da crise, devem promover sacrifícios.

Essa mesma lógica informa o inconsciente do patrão que sonega o salário de seus empregados sob pretexto de capitalizar e multiplicar a prosperidade geral, e criar mais empregos. Também leva o governo a acusar as greves de responsáveis pelo caos econômico, mesmo sabendo que resultam dos baixos salários pagos aos que tanto trabalham sem ao menos a recompensa de uma vida digna.

O deus da razão do Mercado merece, como prova de fidelidade, o sacrifício de todo um povo. Todos os ideais estão prenhes de promessas de vida: a prosperidade dos bancos credores, a capitalização das empresas ou o ajuste fiscal do governo. Salva-se o abstrato em detrimento do concreto, a vida humana.

O espantoso dessa lógica é admitir, como mediação, a morte anunciada. Mata-se cruelmente através do corte de subsídios a programas sociais; da desregulamentação das relações trabalhistas; do incentivo ao desemprego; dos ajustes fiscais draconianos; da recusa de conceder aos aposentados a qualidade de uma velhice decente.

A lógica cotidiana do assassinato é sutil e esmerada. Aqueles que têm admitem como natural a despossessão dos que não têm. Qualquer ameaça à lógica cumulativa do sistema é uma ofensa ao deus da liberdade ocidental ou da livre iniciativa. Exige-se o sacrifício como prova de fidelidade. Não importa que Isaac seja filho único. Abraão deve provar sua fidelidade a Javé. E não há maior prova do que a disposição de matar a vida mais querida.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Notas da Mídia Independente sobre a situação de Pinheirinho (A Morte de uma criança).

[PINHEIRINHO] polícia mata criança em despejo violento em São José dos CamposPor cmi sp 22/01/2012 às 19:12
Informações de companheiros/as do CMI SP
Recebemos agora a informação, de companheiros/as do CMI SP que estão em Pinheirinhos, que uma criança acaba de morrer, assinada pela polícia do estado de São Paulo. A polícia usou bombas contra um grupo de crianças, deixando vária feridas. Uma delas não resistiu.